Comer | Beber e Repetir

Filipe Melo e Juan Cavia, a dupla responsável por obras como “as Aventuras de Dog Mendonça e PizzaBoy” e “Vampiros” volta em grande com estes dois contos. De um lado temos uma garrafa de champanhe escondida durante a Segunda Grande Guerra, do outro, uma tarte de maçã que leva um detetive a percorrer o interior Americano. 

Ambos os contos evocam a memória palatina de quem os lê. Com o foco nesse fator tão banal e, ainda assim, explorado de uma maneira tão poética que nos transporta à época correspondente, de tal modo que quase sentimos o que as personagens estão a sentir, e a razão da sua fixação.     

Majowski – Beber

Este primeiro conto, baseado num relato real que ocorreu durante os anos da Segunda Grande Guerra, conta a história de um casal Polaco que gere um dos restaurantes mais emblemáticos de Berlim, onde generais das SS almoçam e jantam diariamente. 

Franciszek Majowski, após o ataque Alemão a Varsóvia, esconde uma garrafa de champanhe como que acreditando que dias melhores virão. 

Os anos vão passando, a incerteza instala-se e o domínio Nazi prevalece. Mas Majowski acredita na queda Nazi, e assim como aquela garrafa, guarda em si a esperança de um futuro melhor.   

© João Piecho

Sleepwalk – Comer

Evocando a memória de infância, relata a história (fictícia) de uma promessa, que leva a um inspetor americano, nos anos 80 a percorrer parte do país por uma fatia de tarte de maçã. 

Deixamo-nos envolver emocionalmente com as personagens de tal maneira que ficamos agarrados a elas, chegando mesmo a sentir o doce sabor da tarte, e a amargura de quase não conseguir cumprir uma promessa. 

Sleepwalk apela ainda à memória auditiva, não fosse o uma referência musical vinda de 1959 por Santo & Johnny que o inspector ouve durante a sua viagem.

© João Piecho

Repetir

Estas são as duas premissas que fazem de Comer – Beber uma pequena maravilha em forma de livro. As ilustrações delicadas, já tão características, de Juan Cavia dão o toque final ao que, já de si, seriam dois belos contos. 

Por fim, somos brindados com uma receita da tarte de maçã da mãe do autor, “que aprendeu com a sua mãe, que por sua vez aprendeu com a sua mãe.” E ainda alguns mimos, como o logo original, fotos do restaurante e a carta de Beatrice Schilling, onde conta a história dos seus avós. 

Os dois relatos, transportam-nos para épocas e locais completamente distintos, mas ainda assim os autores fazem-no de maneira tal, que quase viajamos no tempo. Comer – Beber é uma obra prima de pequeno formato, mas de um tamanho imenso, que nos fará querer Comer – Beber e Repetir. 

 

© João Piecho
João Piecho

Co-fundador, membro da Equipa Editorial e, sobretudo, o responsável por toda a imagem e som deste estaminé. Tem como interesses: Fotografia, Música, e Desportos Motorizados e não Motorizados.