Formar vs. Ganhar

O debate formar vs. ganhar perdeu muito da sua relevância por causa do frame “formar vs. ganhar”.

É óbvio que é importante ganhar, mesmo que se queira formar, assim como é importante formar, por muito que se queira ganhar. A discussão torna-se tão inócua a partir deste frame, que é possível imaginar a palestra de um treinador de cada fação na sua equipa de jovens atletas:

-(Treinador-formar): “Hoje é para perder este jogo custe o que custar, para mostrar que estamos aqui é para formar!!!”

-(Treinador-ganhar): “Hoje é para ganhar der por onde der, desde que o árbitro não veja até arrancar olhos vale!!!”

Ambas situações são ridículas, apesar da segunda ser mais aceite que a primeira, mas isso seria assunto para outra conversa.

Como tal, experimentemos alterar o frame para “proficiency vs. growth” (capacidade vs. crescimento, ou rendimento vs. desenvolvimento). A conversa muda. À primeira vista pode se achar que o importante é o desenvolvimento mas, se estivermos a falar de um clube que queira ter jogadores de Primeira Liga, compensará a esse clube ter um jogador fraco que esteja a evoluir a um ritmo alto (jogador 1), ou um jogador de alto nível que esteja a crescer lentamente (jogador 2)? Se o jogador 2 tiver um nível de Primeira Liga, será compreensível que seja ele a escolha, até porque não só ninguém garante que o jogador 1 vai chegar ao mesmo nível, como quanto maior a capacidade, mais difícil e menor será o desenvolvimento. Mas isto é apenas um exemplo de para onde a conversa pode seguir com a mudança de frame.

No confirmation hearing para Secretária de Estado da Educação (equivalente a Ministra de Educação) de Betsy deVos, o Senador Al Franken confronta-a em relação ao “proficiency vs. growth” e indica que a questão é debatida na comunidade do ensino. No mesmo hearing, dá a sua opinião em como prefere o “growth”, porque os professores que seguem o caminho do “proficiency” acabam por se esquecer dos alunos mais fracos, afetando o rendimento dos mesmos. Isso leva a outra questão – na formação, tendemos sempre a focar e a dar mais condições aos melhores, justificando a meritocracia, mas não faria mais sentido o pensamento oposto, visto serem os piores aqueles que mais precisam de condições para evoluir?

Independentemente da opinião de cada um em relação aos exemplos anteriores, mudando o frame da questão “formar vs. ganhar” para “capacidade vs. crescimento” abre um leque de opções e de discussões  acerca da formação no desporto, que seria bem mais proveitoso para o seu desenvolvimento.

© Markus Spiske via Unsplash
Roy Silva

Licenciado em Economia, é um amante de Desporto e Hip Hop.