Economistas do Passado com Ideias de Futuro – John Maynard Keynes

Economistas do Passado com Ideias de Futuro é uma minissérie de seis textos que serão semanalmente publicados no Metrónomo. Nesta minissérie vamos apresentar seis economistas, com teorias ou modelos económicos desenvolvidos para uma realidade diferente da atual. O que nos propomos é mostrar como estas teorias e modelos podem, ainda hoje, ser usados e aplicados à realidade presente.

Os economistas que escolhemos apresentar nas próximas seis semanas são: David Ricardo, Irving Fisher, John Maynard Keynes, Paul Samuelson, Milton Friedman e Amartya Sen.

Os textos são uma colaboração entre Tiago Bernardino, Diogo Lima e João Quelhas, outrora separados pela secretaria de professor, mas que hoje discutem frequentemente economia e politica(s). Os três partilham do interesse em macroeconomia e pensamento económico, entre outras coisas nerd.

John Maynard Keynes (1883-1946)

John Maynard Keynes foi um gigante intelectual do século XX, tendo sido aluno de Alfred Marshall, um dos pais da Economia moderna, no King’s College.

Depois do fim da 1ª Guerra Mundial, Keynes fez parte da delegação Britânica nas negociações do Tratado de Versalhes, publicando “As Consequências Económicas da Paz” em 1919, onde criticou o acordo ratificado. Em 1936, publicou o magnum opus da sua carreira, a “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, que revoluciona o estudo da Economia, criando a disciplina hoje conhecida como macroeconomia.

A Grande Depressão de 1929 trouxe consigo níveis de desemprego e subutilização de recursos nunca antes vistos no mundo desenvolvido. A economia ortodoxa da época baseava-se na hipótese de que os preços vigentes em todos os mercados eram flexíveis, e como tal se ajustavam para manter o equilíbrio entre a procura e a oferta a todo e qualquer momento. Dentro deste sistema de pensamento, a oferta cria a sua própria procura através do sistema de preços (Lei de Say), e, como tal, era impossível haver um equilíbrio com “Desemprego Involuntário”, ou seja sem indivíduos que desejam trabalhar ao preço de mercado mas que não encontram emprego.

Isto acontece porque os salários ajustar-se-iam sempre para garantir que toda a força laboral no mercado estava empregada. Keynes, por seu lado, procurou explicar o que determinava o nível agregado de emprego, e propôs que este depende do equilíbrio do mercado de bens da economia vista como um todo, que é determinado pela procura efetiva, ou seja, o ponto em que a procura planeada é igual a oferta planeada.

A oferta agregada não pode ultrapassar unilateralmente o nível de procura efetiva, pois os empreendedores não vão aumentar a quantidade que produzem sem haver procura interessada em comprar essas unidades extras. O equilíbrio é sempre determinado parcialmente pela Procura Agregada, fazendo com que seja possível um ponto de equilíbrio com desemprego involuntário caso não haja procura suficiente.

Outro conceito apresentado por Keynes em 1936 foi a “Teoria da Eficiência Marginal do Capital” como determinante do investimento. Os empreendedores investem num projeto quando o seu retorno é superior à taxa de juro vigente no mercado, que representa o custo de financiamento. Ora, o retorno de um projeto é estimado a partir das informações disponíveis no presente, e depende do estado de espírito dos agentes económicos em relação ao futuro (os famosos “espíritos animais”).

As ideias matrizes acima apresentadas são úteis para percebermos o que está, presentemente, a acontecer com os confinamentos sanitários, e o que poderá acontecer assim que eles acabarem. Enquanto nos encontramos em confinamento, a oferta agregada está limitada, pois existem setores sem autorização para produzir, mas, desde que não haja quebras nos rendimentos, a procura agregada não diminui.

Isto significa que, caso não haja destruição da capacidade produtiva, um levantamento do confinamento resultaria, sem outras alterações relevantes, num regresso ao anterior nível de procura efetiva. No entanto, observamos falências de empresas, o que contrai tanto o lado da procura, com a diminuição de rendimentos, como o da oferta, com a destruição de capacidade produtiva. O investimento permite a expansão da produção na economia, mas depende de uma melhoria nas expectativas, que são influenciadas pela procura no presente. A procura só aumenta se houver investimento que expanda o emprego.

Não existe uma dicotomia entre dois lados do mercado de bens, pois estes afetam-se mutuamente. Como tal, é possível imaginar um cenário em que as expectativas dos empreendedores não se alteram com a reabertura económica, fazendo com que estes não invistam. Ao não investirem, o emprego não se expande, e a procura mantém-se deprimida. O nível de procura efetiva atual torna-se “permanente”, e não apenas uma contingência circunstancial, pois a oferta agregada não pode aumentar para lá do ponto de procura efetiva, e a procura agregada também não se expande se não houver um nível de emprego superior. A economia encontra-se num equilíbrio não eficiente, do qual dificilmente sai se não houver outra intervenção.

Fontes:

    • Fonseca, Gonçalo L. n.d. “John Maynard Keynes”, History of Economic Thought Website. Accessed January 26, 2021. https://www.hetwebsite.net/het/profiles/keynes.htm
    • Fonseca, Gonçalo L. n.d. “Hicks-Hansen IS-LM Model”, History of Economic Thought Website. Accessed January 26, 2021. https://www.hetwebsite.net/het/essays/keynes/hickshansen.htm
    • Keynes, J.M. 1936. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (The General Theory of Employment, Interest and Money). #2010. Lisboa. Relógio D’Água.
    • Temin, P., and Vines, D. 2014. Keynes – Uma Teoria Útil à Economia Mundial (Keynes – Useful Economics for the World Economy). #2015. Alfragide. Publicações Dom Quixote.
    • Rogers, C. 2008. “The Principle of Effective Demand and the State of Post Keynesian Monetary Economics”. School of Economics University of Adelaide, Research Paper No. 2008-04. https://core.ac.uk/download/pdf/6507083.pdf
© The Adam Smith Institute
Diogo Lima

Estudante de economia, com ambições de um dia ser professor de macroeconomia. Tem a mania que entende melhor que ninguém a Teoria Geral, que está a ler há 3 anos. Gosta de mandar uns soundbytes sobre política, tennis, futebol, F1 e história. É maluco por Star Wars desde que se lembra, ao ponto de ir ver o mesmo filme ao cinema mais de uma vez, independentemente da qualidade.

João Quelhas

Aspirante a economista já que passou os últimos anos a estudar modelos e a otimizar escolhas. Com particular interesse por macroeconomia e o fascinante mundo dos mercados financeiros. Como um bom nortenho, adora boas conversas acompanhadas de uma francesinha e de vários finos. Mas também faz desporto sempre que está sol.

Tiago Bernardino

Estudante desde que tem memória, sonha-o ser toda a vida para que um dia possa saber tudo sobre nada. Acha que percebe de Economia e decidiu ir mostrar isso lá para os lados da Escandinávia.  Considera que o que falta para Economia se tornar um tópico sexy é haver uma série de televisão sobre economistas.