Economistas do Passado com Ideias de Futuro – Amartya Sen

Economistas do Passado com Ideias de Futuro é uma minissérie de seis textos que serão semanalmente publicados no Metrónomo. Nesta minissérie vamos apresentar seis economistas, com teorias ou modelos económicos desenvolvidos para uma realidade diferente da atual. O que nos propomos é mostrar como estas teorias e modelos podem, ainda hoje, ser usados e aplicados à realidade presente.

Os economistas que escolhemos apresentar nas próximas seis semanas são: David Ricardo, Irving Fisher, John Maynard Keynes, Paul Samuelson, Milton Friedman e Amartya Sen.

Os textos são uma colaboração entre Tiago Bernardino, Diogo Lima e João Quelhas, outrora separados pela secretaria de professor, mas que hoje discutem frequentemente economia e politica(s). Os três partilham do interesse em macroeconomia e pensamento económico, entre outras coisas nerd.

Amartya Sen (1933 – )

Amartya Sen foi o primeiro economista indiano a vencer o Prémio Nobel em Ciências Económicas, no ano de 1998. Sen destacou-se, não só pelos seus trabalhos em economia, mas também em filosofia, duas disciplinas intimamente ligadas desde a origem da Economia moderna – Adam Smith, nomeado como pai da economia moderna era um filósofo. Os seus trabalhos incluem contribuições para a teoria da escolha social, teoria da justiça, metodologia e medição económica, entre outros. Para este texto escolhemos abordar duas contribuições suas: uma que não é mais que uma constatação estatística e outra que revolucionou a forma como medimos progresso económico.

No início dos anos 90, Sen constatou que mais de 100 milhões de mulheres estavam desaparecidas. Existe uma crença generalizada que as mulheres representam uma maior percentagem no total da população do que os homens. Esta crença advém das estatísticas que, de facto, são observadas nos países desenvolvidos, em particular na Europa e na América do Norte. Contudo, a nível mundial, o que de facto se observa é o inverso, isto é, há uma maior percentagem de homens do que de mulheres. Sen publicou estas constatações num artigo no “The New York Review”, onde também apresentou algumas causas para esta diferença.

De facto, apesar de a Europa e a América do Norte registarem, tipicamente, um rácio mulheres-homens maior que 1, o mesmo não se verifica em alguns países africanos e asiáticos, em particular na China e na Índia que pelo seu tamanho são suficientes para inverter este rácio a nível global. Demograficamente, é expectável que a população feminina seja em maior número que a população masculina, devido sobretudo a fatores biológicos. Abortos baseados no sexo do feto e acesso desigual a cuidados de saúde são duas das possíveis causas para que, muitos países, tenham o rácio invertido ao que seria expectável.

Mapa com os rácios por país © Nay.T.Diniz

Outra das contribuições que Amartya Sen fez, durante a sua carreira, foi a participação na criação de uma medida de desenvolvimento económico. Tradicionalmente, sempre que se fala de medir o nível de riqueza de um país usa-se a produção efetuada pelos residentes neste território durante um período de tempo – o PIB. Para comparações entre países é comum controlar-se para o número de habitantes e para diferentes poderes de compra. Contudo, será sempre uma medida de progresso incompleta dado que só tem em conta o rendimento da população. Em 1990, num trabalho conjunto com outros economistas para a Organização das Nações Unidas, foi criado o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Esta medida tem em conta aspectos ligados à saúde (esperança média de vida) e à educação (número de anos de escolaridade esperado e número médio de anos de estudo), para além do nível médio de rendimento.

Evolução do HDI num conjunto de países/regiões: © UN Development Programme

Esta medida trouxe uma nova forma de olhar para o progresso de um país. As políticas de um país não estão exclusivamente dedicadas em aumentar o rendimento, mas também têm outras preocupações. Este indicador foi o primeiro a olhar para o desenvolvimento de uma forma mais abrangente. A seguir ao IDH, outros indicadores surgiram que incluem ainda mais dimensões (liberdade, democracia, ecologia, segurança, etc). Graças a esta mudança de panorama, temos agora uma forma de quantificar e perceber o que leva a que não se considere um país como a Arábia Saudita, onde o rendimento per capita é dos mais elevados, um país desenvolvido.

Fontes:

    • Lin, Ming-Jen; Liu, Jin-Tan; Qian, Nancy (2014). “More Missing Women, Fewer Dying Girls: The Impact of Sex-Selective Abortion on Sex at Birth and Relative Female Mortality in Taiwan”. Journal of the European Economic Association. 12(4): 899–926.
    • Kishtainy, Niall. A little history of economics. Chapter 35 Yale University Press, 2017.
    • Sen, Amartya (1990). “More Than 100 Million Women Are Missing”. The New York Review of Books. ISSN 0028-7504. Retrieved 2021-02-10.
    • United Nations Development Programme, UNDP, ed. (2010). “Overview | Celebrating 20 years of human development”. Human Development Report 2010 | 20th anniversary edition | the real wealth of nations: pathways to human development. New York, NY: United Nations Development Programme. ISBN 9780230284456.
© nobelprize.org
Diogo Lima

Estudante de economia, com ambições de um dia ser professor de macroeconomia. Tem a mania que entende melhor que ninguém a Teoria Geral, que está a ler há 3 anos. Gosta de mandar uns soundbytes sobre política, tennis, futebol, F1 e história. É maluco por Star Wars desde que se lembra, ao ponto de ir ver o mesmo filme ao cinema mais de uma vez, independentemente da qualidade.

João Quelhas

Aspirante a economista já que passou os últimos anos a estudar modelos e a otimizar escolhas. Com particular interesse por macroeconomia e o fascinante mundo dos mercados financeiros. Como um bom nortenho, adora boas conversas acompanhadas de uma francesinha e de vários finos. Mas também faz desporto sempre que está sol.

Tiago Bernardino

Estudante desde que tem memória, sonha-o ser toda a vida para que um dia possa saber tudo sobre nada. Acha que percebe de Economia e decidiu ir mostrar isso lá para os lados da Escandinávia.  Considera que o que falta para Economia se tornar um tópico sexy é haver uma série de televisão sobre economistas.