Economistas do Passado com Ideias de Futuro – Milton Friedman

Economistas do Passado com Ideias de Futuro é uma minissérie de seis textos que serão semanalmente publicados no Metrónomo. Nesta minissérie vamos apresentar seis economistas, com teorias ou modelos económicos desenvolvidos para uma realidade diferente da atual. O que nos propomos é mostrar como estas teorias e modelos podem, ainda hoje, ser usados e aplicados à realidade presente.

Os economistas que escolhemos apresentar nas próximas seis semanas são: David Ricardo, Irving Fisher, John Maynard Keynes, Paul Samuelson, Milton Friedman e Amartya Sen.

Os textos são uma colaboração entre Tiago Bernardino, Diogo Lima e João Quelhas, outrora separados pela secretaria de professor, mas que hoje discutem frequentemente economia e politica(s). Os três partilham do interesse em macroeconomia e pensamento económico, entre outras coisas nerd.

Milton Friedman (1912-2006)

Milton Friedman é considerado um dos economistas mais influentes da segunda metade do século XX e viu o seu trabalho reconhecido com a atribuição do Prémio Nobel da Economia, em 1976.

Nas três décadas como professor da Universidade de Chicago, foi o precursor de uma filosofia económica que se opôs ao consensual pensamento keynesiano da época. Como resultado, fundou a conhecida “Escola Monetarista” e publicou inúmeras obras que não só se destacaram no meio académico, mas também alcançaram o público geral. Dentro da sua extensa bibliografia, pode-se destacar os livros “Capitalismo e Liberdade” (1962) e “História Monetária dos Estados Unidos” (1963).

Para Friedman, os economistas deveriam procurar compreender as grandes questões da atualidade, testar as suas teorias mediante os factos e procurar soluções que pudessem melhorar o nível de vida da sociedade. A importância que ele atribuía aos estudos empíricos na formulação de novos modelos económicos traduziu-se, então, na rejeição da Teoria Keynesiana que vigorava entre os seus contemporâneos e que defendia a intervenção do Estado na economia através da despesa pública. Como alternativa, o economista construiu uma versão renovada e mais elaborada da teoria quantitativa da moeda, que era ignorada na altura por estar ultrapassada e ser rudimentar, e que ficou conhecida como a Teoria Monetarista.

Os monetaristas consideravam a moeda como o fator central na determinação do nível do rendimento nominal. De facto, no curto prazo, um aumento da taxa de crescimento da oferta da moeda pode-se transpor para o produto e para o emprego (se o produto atual se encontrar abaixo do produto potencial), contudo estes efeitos dissipam-se no longo prazo e apenas o nível de preços é afetado. Como tal, políticas orçamentais apenas teriam impacto na economia real se o financiamento das despesas fosse através da criação da moeda e não através de dívida pública. Este resultado, conhecido como a neutralidade da moeda, permitiu a estes economistas afirmar que a evolução das variáveis da economia real, como o emprego e o produto, é independente do nível de preços e da inflação, e aceitar a dicotomia clássica entre o mercado monetário e o mercado real.

A análise de Friedman foca-se, inicialmente, na procura de moeda, isto é, a quantidade de notas bancárias e moedas que os consumidores desejam ter na sua posse. A função da procura depende do produto nacional, da taxa de juro e da velocidade de circulação e, de acordo com os dados empíricos até a data, varia muito ligeiramente ao longo do tempo. Do outro lado, encontra-se a oferta de moeda, a quantidade de dinheiro que entrava na economia. Esta é considerada uma variável exógena, dependente das decisões das autoridades monetárias e da política desenvolvida pelo sistema bancário. Friedman argumenta, então, que a quantidade de moeda em circulação não é determinada pela procura, mas sim pela oferta, podendo variar de acordo com as decisões dos bancos centrais.

As teorias de Friedman formaram, também, um contraponto às ideias keynesianas, na questão da Phillips Curve. Até à década de 60, os economistas acreditavam que o governo era capaz de aumentar a procura de bens e serviços, reduzindo permanentemente o desemprego através de taxas de inflação maiores. Contudo, Friedman argumentou que uma vez ajustadas as expectativas dos agentes económicos, a taxa de desemprego voltaria a aumentar. Para manter o desemprego constantemente baixo, seria necessária uma taxa de inflação positiva e constante.

Milton Friedman, que defendia uma economia de mercado, livre e aberta, teve, assim, um papel fundamental na luta contra a inflação e numa mudança de direção na forma de olhar para a economia. Pelas palavras do próprio, “a inflação é uma doença” e “é sempre e em toda a parte um fenómeno monetário” pelo que deveria ser combatida. Do seu legado, destacamos, portanto, a importância da quantidade de moeda em circulação como instrumento essencial para as políticas de estabilização e para a determinação dos ciclos económicos e da inflação.

Atualmente, umas das maiores preocupações dos economistas e dos políticos é garantir, exatamente, uma taxa de inflação estável. Os efeitos negativos das variações abruptas dos níveis de preços são compreendidos e o seu combate está nas mãos dos bancos centrais. Como exemplo, o Banco Central Europeu definiu como seu mandato a estabilidade dos preços, tendo como objetivo alcançar um valor da taxa de inflação anual abaixo, mas próximo de 2% no médio prazo.

Os mecanismos de transmissão da política monetária permitem, assim, aos bancos centrais controlarem a oferta de moeda e as taxas de juro de forma a evitar espirais inflacionistas e deflacionistas. Contudo, os recentes aumentos significativos dos balanços dos bancos centrais, a par dos gastos públicos que os países se vêem obrigados a fazer em resposta à recente pandemia, levantam novamente a problemática da inflação elevada no horizonte.

Por enquanto, os fatores deflacionários estão presentes, uma vez que se assiste a um aumento da taxa de poupança devido às restrições da atividade económica, o dinheiro criado pelos bancos centrais tem sido, sobretudo, canalizado para os mercados financeiros e a velocidade de circulação de moeda está em mínimos históricos. Contudo, assim que as economias começarem a crescer novamente, o que significará maiores consumos e um incremento do crédito disponível, estes fatores irão evaporar-se e a criação de moeda poderá atingir a economia real, resultando numa aceleração forte da inflação.

Fontes:

© The Friedman Foundation for Educational Choice
Diogo Lima

Estudante de economia, com ambições de um dia ser professor de macroeconomia. Tem a mania que entende melhor que ninguém a Teoria Geral, que está a ler há 3 anos. Gosta de mandar uns soundbytes sobre política, tennis, futebol, F1 e história. É maluco por Star Wars desde que se lembra, ao ponto de ir ver o mesmo filme ao cinema mais de uma vez, independentemente da qualidade.

João Quelhas

Aspirante a economista já que passou os últimos anos a estudar modelos e a otimizar escolhas. Com particular interesse por macroeconomia e o fascinante mundo dos mercados financeiros. Como um bom nortenho, adora boas conversas acompanhadas de uma francesinha e de vários finos. Mas também faz desporto sempre que está sol.

Tiago Bernardino

Estudante desde que tem memória, sonha-o ser toda a vida para que um dia possa saber tudo sobre nada. Acha que percebe de Economia e decidiu ir mostrar isso lá para os lados da Escandinávia.  Considera que o que falta para Economia se tornar um tópico sexy é haver uma série de televisão sobre economistas.