Admirável Geração Nova

Num ensino escolar cada vez mais multidisciplinar é expectável o desenvolvimento de um número crescente de capacidades, desde crianças. No final do percurso escolar, incentiva-se que a especialização na área de formação anexe o maior número possível de áreas complementares. Constroem-se “soldados operacionais” prontos para a complexidade do futuro, mas sobram vítimas de um certo irrealismo.

Somos a geração “mais bem informada” e com o “mundo nas mãos”. Com tanto poder, como podem não ser geradas grandes expectativas e exigências em conformidade? Para todo o bem, há um preço e, neste caso, parecemos muitas vezes não olhar para a etiqueta. Se as influências de Economia não fossem já de si evidentes, sabe-se, também, que não podemos injetar quantidades infinitas de um dado input (componentes) e obter quantidades equivalentes de output (resultados): há retornos marginais decrescentes devido à saturação de todos os outros componentes em causa.

Aqui, um desses componentes pode ser, por exemplo, a nossa capacidade de processamento. Por mais informação que nos seja acessível, não conseguimos processá-la na totalidade. Ler todas as páginas informativas (entenda-se livros ou online) é para lá de tarefa hercúlea. A facilidade com que acedemos a algo irrefutavelmente promove esse mesmo acesso e o seu uso, todavia não incondicionalmente. Pedimos que a nova geração saiba tudo, quando, na esmagadora realidade, ninguém tem bem a certeza de nada (exceto das cores, dos números e pouco mais).

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Essa demanda culmina no meio universitário – a fase onde otimizamos o valor que viremos a acrescentar à sociedade através do mercado de trabalho. A entrada no ensino superior traz na mala uma liberdade alargada que, usualmente, confere a sensação do “agora é que é” inerente ao cenário onde se é dono da própria vida e, simultaneamente, desprendido de grandes responsabilidades.

Durante o primeiro semestre, as notas tendem a sofrer uma quebra como as PMEs em confinamento, perante o choque de uma nova realidade, mas logo encontram o caminho de volta, recuperando quase em “forma de V” ou “W” consoante o caso [fim do paralelismo].

Porém, o sucesso académico não se fica por aqui. Esta torna-se na altura em que, diante a idade e maturidade, “podemos e devemos” ser capazes de quase tudo (física e psicologicamente). Quanto mais um licenciado, ou mestre, se aproximar do “super-herói” mais preparado estará para a vida profissional. Pede-se o tudo porque, em teoria, temos a possibilidade de conseguir tudo.

Esta contínua pressão leva a um erro crucial: deixamos de medir o tempo em minutos e passamos a contá-lo em níveis de produtividade. Na prática, somos tão humanos quanto há 40, 50 ou 60 anos e, desse modo, igualmente inaptos à ambivalência. A melhoria das condições de vida não implica uma mudança na natureza que nos caracteriza.

Em resultado, explodimos de frustração quando somos confrontados com as nossas limitações na cara – soam a falhanço. Ser tudo é, muitas vezes, não ser nada pois hipoteca-se saúde mental em prol duma busca desenfreada por algo que corrobore o sucesso no futuro. Uma prova irrefutável de que iremos alcançar o que é esperado de nós. O que me destaca dos demais? Como atinjo a excelência? Que conjunto de competências é suficiente para marcar a diferença?

Numa altura em que a elevada exposição faz parte do “status quo”, e nos torna sujeitos a comparações inevitáveis, a pressão parece agudizar-se perante o velho ditado que determina falhar ser uma fraqueza e apenas os êxitos serem dignos de partilha. Online acumulam-se sucessos e as restantes histórias permanecem trancadas a cadeado. É uma realidade que funciona como um espelho retorcido que apontamos uns aos outros sem compreender que partilhamos receios demasiado semelhantes.

Receamos a capacidade do próximo e corremos para ser os primeiros a chegar à meta – caso não haja lugar para todos. Pelo meio, perde-se a noção de tempo, algo que parece nunca ser suficiente para nos tornarmos indivíduos “multi-capacitados”. No entanto, quanto mais exigirmos, mais diligente e apressado será o ponteiro. Afigura-se cada vez mais importante saber parar.

Em 1981, a banda norte-americana Journey lançou uma canção sobre apanhar o comboio da meia-noite para lado nenhum. Nessa viagem, partilhada por “a small town girl” e “a city boy”, podemos reconhecer o encontrar de um propósito na prática de um ato sem propósito. Atualmente, a ausência de destino ou aparente utilidade no esforço parece traduzir “desperdício”.

 

O tempo vazio é, em alternativa e sobretudo, absorvido por smartphones e o estimulante mundo digital. Sabemos estar no Facebook, YouTube, Instragram, LinkedIn e Twitter em infinito scroll a ler o que devíamos estar a ser, fazer ou pensar. Mas ainda seremos capazes de ir para o desconhecido, sem objetivos, tarefas ou certificados de participação?

Por maiores que sejam as exigências, os meios ou as possibilidades, ficaremos tão melhor quanto formos capazes de assumir as nossas próprias limitações, acabando com a manobra de ilusão que nos prende à expectativa alheia. Ao contrário da procura pela omnisciência, a carruagem para o nada leva-nos a algum lado.

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Maria Inês Silva

Eventual economista a finalizar a licenciatura na Nova SBE. Genericamente adepta do ceticismo com uma visão anti-dogmática de quase tudo. Além de renunciar certezas, nos tempos livres equilibro a procrastinação com ingestão de açúcar. Interesse em geopolítica, relações internacionais, políticas públicas e Netflix.