Economistas do Passado com Ideias de Futuro – David Ricardo

Economistas do Passado com Ideias de Futuro é uma minissérie de seis textos que serão semanalmente publicados no Metrónomo. Nesta minissérie vamos apresentar seis economistas, com teorias ou modelos económicos desenvolvidos para uma realidade diferente da atual. O que nos propomos é mostrar como estas teorias e modelos podem, ainda hoje, ser usados e aplicados à realidade presente.

Os economistas que escolhemos apresentar nas próximas seis semanas são: David Ricardo, Irving Fisher, John Maynard Keynes, Paul Samuelson, Milton Friedman e Amartya Sen.

Os textos são uma colaboração entre Tiago Bernardino, Diogo Lima e João Quelhas, outrora separados pela secretaria de professor, mas que hoje discutem frequentemente economia e politica(s). Os três partilham do interesse em macroeconomia e pensamento económico, entre outras coisas nerd.

David Ricardo (1772-1823)

David Ricardo foi um economista e político Britânico, e é considerado, nos dias de hoje, um dos fundadores da Teoria Económica Clássica. Proveniente de uma família sefardita de origem portuguesa, entrou no mundo dos negócios através do seu pai logo aos 14 anos.

A sua obra principal denominada “Princípios de Economia Política e de Tributação” remonta a 1817 e contempla os seus maiores contributos. Da bibliografia, destacam-se a Teoria das Vantagens Comparativas, a Teoria da Renda Diferencial e ensaios sobre as leis da distribuição da produção por três categorias sociais diferentes: proprietários da terra, proprietários do capital e os trabalhadores.

A influência de Ricardo, que se verifica até aos dias de hoje, foi particularmente importante não só para os economistas neoclássicos, como também para economistas marxistas, o que mostra a sua relevância como um dos pilares da Economia. De seguida, exploramos um dos seus resultados mais conhecidos e que está no cerne do movimento de globalização que se assistiu nas últimas décadas.  

Conhecida como a Teoria Clássica do Comércio Internacional, esta começou a ser desenvolvida por Adam Smith através da introdução do liberalismo económico como resposta à doutrina mercantilista em vigor, baseada em políticas protecionistas e que não via o comércio internacional como gerador de riqueza. À luz das vantagens absolutas, cada país deveria apenas produzir e exportar certos produtos – aqueles cujo número de horas de trabalho requerido era inferior – enquanto que os restantes deveriam ser importados.

Posteriormente, David Ricardo parte de uma observação empírica para corrigir a Teoria das Vantagens Absolutas e mostrar que, mesmo quando um país não é eficiente a produzir nenhum dos bens em questão, este deveria continuar inserido no comércio internacional. De facto, ao explorar o conceito de vantagens comparativas, o economista britânico defende que o comércio livre pode ser benéfico para duas nações se cada uma se especializar na produção do bem para o qual possui maior vantagem ou menor desvantagem em termos relativos. As vantagens comparativas surgem, exatamente, das diferenças observadas na produtividade do fator trabalho, decorrentes dos diferentes níveis de tecnologia

Através de um exemplo ilustrativo, e considerando o custo relativo do tecido face ao custo do vinho, conclui que Portugal tem uma vantagem comparativa na produção de vinho e Inglaterra tem uma vantagem comparativa na produção de tecido, uma vez que o custo relativo do vinho é inferior em Portugal enquanto que o custo relativo do tecido é inferior em Inglaterra. Assim, percebe-se que Portugal, embora não fosse mais eficiente que Inglaterra em termos absolutos, é relativamente mais eficiente num dos produtos e, como tal, deve estabelecer relações comerciais para a troca desses bens com Inglaterra.

Explica, também, que esta divisão conduz a um processo de especialização de cada parte e, como consequência, garante a eficácia da troca – no exemplo, ambos os países ganham e, uma vez que cada país ganha, ganha também o conjunto. Uma das críticas que o modelo levanta é a circulação dos fatores de produção, na medida em que Ricardo assume uma situação de imobilidade dos mesmos e, como tal, o equilíbrio atingido pelas trocas comerciais não permite atingir a melhor alocação possível

Na era global em que vivemos, assistimos, de diversas formas, à aplicação desta teoria, quer em termos económicos quer em termos sociais. Efetivamente, as cadeias de valor globais são de extrema importância para a dinamização das economias e permitiram, nas últimas décadas, o inacreditável desenvolvimento económico de diversas potências mundiais, das quais a China é o exemplo mais vincado. Como reflexo desta evolução, pode-se destacar o crescimento anual médio de 3% das exportações de mercadorias como fração do PIB.

Através de complexas teias de trocas comerciais, é possível hoje, em Portugal, comprar um produto nos Estados Unidos que foi produzido no continente asiático com matérias-primas do continente africano. Isto espelha, certamente, as vantagens do processo de especialização, que se tem vindo a desenvolver e que nasce a partir dos pensamentos do passado, de economistas como Ricardo.

A liberalização das trocas comerciais conduziu, também, à crescente produtividade das empresas. E para isto, muito contribuiu a especialização do trabalho humano. De facto, as funções desempenhadas por cada pessoa têm vindo a tornar-se , cada vez mais, específicas e exigentes.

Atualmente, o mundo do trabalho exige a cada um que se foque em certas competências, sobretudo aquelas para as quais se tem mais aptidão – isto é, aquelas com um custo de aprendizagem menor e para as quais se tem uma vantagem comparativa. 

A divisão do trabalho permite, assim, um aprofundamento do conhecimento relativo a cada tarefa e, de certa forma, torna o processo produtivo de uma economia mais eficiente. E, como tal, atingem-se níveis de produtividade mais elevados, possibilitando maiores níveis de riqueza e desenvolvimento.

Isto é bastante evidente em países como Alemanha e França, cuja produtividade do trabalho, medida como o Produto Interno Bruto por hora de trabalho, passou de 20$/h e 10$/h, respectivamente em 1950, para valores superiores a 60$/h nos últimos anos, tornando-os, atualmente, nos países mais desenvolvidos do Mundo. 

Fontes:

    • Ricardo, D. “Princípios de Economia Política e de Tributação”, trad. port., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1975.
    • Yueh, L. “The Great Economists: How Their Ideas Can Help Us Today”. Penguin Books Ltd (2019)

Dados retirados de

    • Michel Fouquin & Jules Hugot , 2016. “Two Centuries of Bilateral Trade and Gravity Data: 1827-2014,” CEPII Working Paper 2016- 14 , May 2016 , CEPII
    • Feenstra, Robert C., Robert Inklaar and Marcel P. Timmer (2015), “The Next Generation of the Penn World Table” American Economic Review, 105(10), 3150-3182
© Thomas Phillips
Diogo Lima

Estudante de economia, com ambições de um dia ser professor de macroeconomia. Tem a mania que entende melhor que ninguém a Teoria Geral, que está a ler há 3 anos. Gosta de mandar uns soundbytes sobre política, tennis, futebol, F1 e história. É maluco por Star Wars desde que se lembra, ao ponto de ir ver o mesmo filme ao cinema mais de uma vez, independentemente da qualidade.

João Quelhas

Aspirante a economista já que passou os últimos anos a estudar modelos e a otimizar escolhas. Com particular interesse por macroeconomia e o fascinante mundo dos mercados financeiros. Como um bom nortenho, adora boas conversas acompanhadas de uma francesinha e de vários finos. Mas também faz desporto sempre que está sol.

Tiago Bernardino

Estudante desde que tem memória, sonha-o ser toda a vida para que um dia possa saber tudo sobre nada. Acha que percebe de Economia e decidiu ir mostrar isso lá para os lados da Escandinávia.  Considera que o que falta para Economia se tornar um tópico sexy é haver uma série de televisão sobre economistas.